terça-feira, 4 de maio de 2010

Estrofes coladas

É tão teu meu coração aflito. Não escreve assim rimado...
não escreve assim coeso. Que isso?
Cola aqui as estrofes... desse lado do meu corpo que é frio.
Calada, calado. Calafrio. Cá, lado frio...
Uma brincadeira boba de quem rola na grama, de quem pára de rolar e olha pro céu.
De repente está pequeno, se cobre de azul e vai dormir.
Brincando de palavras na boca. Bobas. Todas.
Se jogam da boca e morrem. Não sabem voar.

Em boca fechada não entra mosca nem sai aspirante a borboleta...
Antes casulos, crisálidas, crisântemos, crinas ao vento frio de uma manhã. Tua crina relinchando.
Minha crise escura curando.

Não é você que eu digo apesar de falar.
E a vontade de mudar as letras e criar uma que não sabe ser lida.
Vontade, de repente, de dizer "linda".
Quem?
A confusão. Caminhando em uma rua que não vai a lugar nenhum. É tão lenda lendo a placa que diz "perdida". Sorri e sai achada. Brinca um pouco na sarjeta e suja o vestido, bonita. Sonha ali pousada sobre aquele muro que é velho. Limpa um pouco essa cara e vai se formar em sentido. Fica logo ao final da rua.
Que bagunça.
Organização é prosperidade, disse minha mãe. Se próspero não parecesse uma palavra tão bonita, me desarrumava, mas me arrumo.
E quem sabe continuar a vomitar para sempre, sem linha mesmo, sem crochê, sem você me entender, eu sem te escutar, a gente se amando assim como se nos conhecêssemos.
O tempo aqui dentro muda tanto que a gente acaba ficando doente. E é tão obsceno agasalhar.
Nos versos das palavras escrevi de verdade, juro. Apenas não sei, às vezes gosto tanto de não saber que faço questão de fazer não saber alguém.
Lê aqui. Sabe?
Ai, confusão! Minha linda confusão!
Se quando fosse dia de morte todo mundo sentisse muito, valeria a pena morrer, não é? Mas todo mundo guarda muito sentimento para dias de velório.
Glória, glória, aleluia. Comigo!

Senta aqui do meu lado pra eu me acalmar.
Eu pareço calmo? Eu sei. Eu sei.
Você também parece.

Eu sei.

De quantas estrofes a gente precisou pra conversar?

Eu sei.

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Pouco tenho dimensão do simples, tudo é difícil. Não é fácil 'simples assim'. Ou não, sei lá." - Márcia R.

é um cantinho do coração em que me tranco que me faz assim pequeno, assim fraco, assim simples... Bate uma vez o coração em poesia e eu soluço: "simples assim", lembrando de mim e do meu cantinho.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Biblioteca e corredor

Metade do tempo se acumulou sob as minhas unhas, o tempo encarde as pontas dos dedos e não me deixa apresentável.
É o meu cabelo que voa descompassado no vento, mais rebelde que eu, mais forte.
Eu tenho medo de olhar para o mundo sem a fumaça do meu cigarro.
Teço véus do meu interior que colorem essa cidade e preenchem seus limites.

É esta cidade que mora em mim, não eu nela.
É como um monstro respirando sob meus pés,
e em minhas próprias veias parece correr concreto,
tornando inabalável meu coração abstrato, torto de tanta ventania.

Estou no fim ou começo desse corredor em que não corro?
Paro, sou parado, olhante, observante, à deriva em um caminho de onde só as cinzas da ponta acesa escapam.
E os pássaros!
Eles, que cortam meus sonhos com suas asas,
aparecem nas minhas esperanças e desaparecem delas carregando pipas, colorindo sua liberdade e me apontando o corredor.

Quanto amor é necessário perder para cruzar com a pequenês e percebê-la?
Eu e ela somos desconhecidos como o destino das pipas roubadas.
Nos reconhecemos sob os cílios, hora ou outra solidários e tristes.
Mas como saber sem perceber?
Eu e a pequenês somos um círculo sem centro,
é a parte que me abandona quando o junto é sozinho e o sozinho é a sombra dos pássaros: imbatível, dona de tudo que é abaixo do desejo.

Eu, como sombra, quero atravessar estes arcos de uma só vez,
em velocidade que ateie fogo nos prédios, que mate, mas que viva;
sugar todo o azul que o horizonte puder apoiar e cuspir em vermelho sobre tudo que é moribundo ou máscara.
Quero entrar em todos os buracos e perfurar seus corações para que nunca mais voltem a ter fundo.
Quero ser sirene que foge da catástrofe,
a pressa que morre,
a inconstância que tira o sentido.

Que sentido eu devo fazer?

De quanto sentido você precisa na minha dor, meu mundo?
Eu cansei de chamar de dor isso que não faz sentido,
cansei de chamar qualquer coisa...
Tampouco quero descansar, enquanto canso, me chamo. Eu atendo.

Quando penso em todas as perguntas que já foram feitas, meu coração se esvazia e minha garganta engarrafamento.

Por isso eu fumo.
Trago a luz do sol de um mundo que funciona.
Em um sopro, idetermino os limites e ilumino tudo o que está escondido.

Quando comecei a acreditar mais nos reflexos?
Este foi o momento em que parei de combinar e conheci esse meu sorriso.
Vê?
Agora, os cantos desertos e os espaços de ninguém são minhas moradas sem porta.

A leveza das nuvens.

A dimensao dos pontos.

A potência da rotina.

O mistério das chaves perdidas.

A crueldade do beijo.

E a fatalidade da solidão.

Mas em desejo não sou diferente de ninguém.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Hamlet nas Minhas Manhãs

Ai, que desvontade...
Algo se pendura nos meus olhos e enfraquece meus músculos.
Os buraquinhos da janela transformam o cômodo em câmara escura, os diafragmas da câmera do meu sono. Projetam na parede a porta do jardim lá fora... os vidros quadriculados de ferragem branca.
E uma cortina.
Uma cortina branca se esquiva do vento, escrevendo uma poesia cinética, uma ação de ninar. A cortina branca a mercê do vento, soprando minha vontade daqui.
Silêncio e os barulhos do mundo. Imobilidade e olhos passeando, cogitando navegar o corpo. Ausência da horas e o medo das horas passando. Uma mão que é de sonho escrevendo e uma voz que é lenta correndo. Vou levantar.

Como?

O tempo parou.

E quando foi que pararam os corações para que prosseguissem os corpos?
Quando foi que lágrima se tornou água e começou a ser engolida? E quando foi que perdeu o sal?

Quando foi que tudo secou para que tudo ficasse tão lindo?
Quem se extasiou?

Quando foi que o amor adoeceu assim? Quando se tornou errado?
Quais os corrompidos?

Quando foi que cinema teve que virar vida e a vida teve que virar as costas?

Quando foi que as palavras acabaram e a língua se conformou?
Quando os ouvidos se esqueceram?

Quando a morte virou começo afinal?

A gente parou no tempo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Retrato do afeto

Um entardecer.
Duas pessoas iluminadas pelo sol das 5h, não, das 6h da tarde, sentadas em um banco. Daqueles de madeira que, entre uma madeira e outra, tem um fresta, mostrando frações do corpo de quem senta.
As duas pessoas estão de costas, não se falam, não se olham; uma apenas abraça a segunda com um braço enquanto a segunda apóia a cabeça em um dos ombros do um.
A duas cabeças olham para o céu: quase todo colorido de laranja, com pequenos buraquinhos brancos e algumas manchas violeta... as nuvens prometem o fim do mundo, apocalípticas...
Além do banco, além das duas pessoas, além do céu, não há nada.
Há, sim. Apenas uma árvore do lado direito do banco, com folhas refletindo as chamas do céu das 6h da tarde, não, das 5h.
Algumas folhas caem lentamente...
...
Não caem muitas, mas, uma hora ou outra... caem duas ou três, ou quatro... e duas de novo, quatro... três folhas... duas. Duas. Mais duas... Três... Cinco! ...duas... Seis! ... Oito... VINTE E TRÊS... dezoito... dezenove... TRINTA e duas folhas! TRINTA E OITO, QUARENTA E DUAS, CAEM QUARENTA E DUAS! SETENTA E UMA... e uma... setenta e cinco... cento e doze... TREZENTOS E SETE! ...trezentos e cinco... treze... cento e quatro... nove... trezentos e trinta e oito...
... Quantas folhas uma árvore tem?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SAC. (texto para teatro)

[Toma alguns comprimidos e um gole de um líquido âmbar. Espera.]
[Toma mais comprimidos e mais um gole. Espera]

Não está dando linha...

[Toma mais comprimidos. Pára. Toma mais ainda e um grande gole do líquido]

Está chamando! Alô? Alô, oi!
(...)
Pode sim. Eu adquiri um dos produtos de vocês, mas não estou satisfeito e gostaria de efetuar a devolução...
(...)
Não, não, ainda está na validade. O problema é com a qualidade da mercadoria realmente.
(...)
Olha... Qual seu nome mesmo? (...) Então... eu sei que vocês são o empreendimento mais antigo do mundo, conheço a fama de vocês. A questão é que, se vocês não fabricassem produtos defeituosos, não haveria um serviço de devolução, concorda?
(...)
O que? Olha aqui, mocinha, eu não danifiquei nada, não é de hoje que essa merda está quebrada, e se eu não havia ligado até agora é porque não queria pagar o preço da ligação!
(...)
Eu não estou nervoso, de forma alguma. Só acho um desrespeito com o consumidor dar garantia de felicidade sobre esse produtinho de quinta que vocês fazem tanta propaganda!
(...)
Ah! Quem você pensa que é, hein? ... Qual seu nome de novo? (...) Bom, coisinha, eu quero falar com o seu superior imediatamente!

...

Alô?! (...) Isso... O Senhor é o responsável pela matriz? (...) Bom.
(...)
Ajudar, você deveria ter ajudado há 20 anos atrás não me dando a porcaria de uma mercadoria defeituosa! Mas se o Senhor melhorar o atendimento dos seus funcionários, acho que já é um bom começo! Tudo o que eu quero mesmo é me livrar disso de uma vez e descansar...
(...)
Sim. Sei que a devolução é definitiva e que não há reembolso, estou ciente. (...) Uhum.
(...)
Estou muito mais do que insatisfeito, meu Senhor! (...) Li o manual, li todo sim.
(...)
Amei, demais até, mas não fui correspondido...
(...)
Sonhei também, mas eles foram sendo todos destruídos irreparavelmente. (...) Sim, tentei. (...) Uhum. Todos impossíveis.
(...)
É... isso eu não entendi muito bem. Li esse capítulo umas quatro vezes, mas não entendi... Se bem que uma vez perguntaram se eu estava fazendo academia e eu consegui gostar um pouquinho de mim por quase duas semanas.
(...)
Fiz amigos, sim, muitos, mas me sentia sempre sozinho.
(...)
O Senhor acha? Pode ser...
(...)
É, mas o maior problema mesmo era com o amanhã. Veio faltando... é. Sempre que me deitava para ir dormir, pensava no outro hoje que eu teria dali a algumas horas, aquela insistência naquele anoitecer intransponível, que impedia que qualquer um pudesse me enxergar de verdade, realmente, sinceramente, e que tampouco me deixava encontrar qualquer lugar onde me apoiar. Apenas desejei que todos os ponteiros de todos os relógios de todo o mundo tic-taqueassem o mais rápido possível para que a real noite pudesse chegar anestesiando minha mente e coração moribundos de exaustão, fechando meus olhos cansados de visualizar o passado na expectativa de cada novo passo à frente.
(...)
Uhum...
(...)
É...
(...)
É, o Senhor tem razão...
(...)
Uhum... é...
(...)
O Senhor faria isso por mim?
(...)
Sério? Quanta gentileza, eu nem acredito.
(...)
Então quer dizer que se eu fizer este depósito neste valor... eu posso fazer a devolução do produto? Que maravilha! Muito Obrigado, Senhor!
(...)
Adeus então. Adeus, Senhor.

...

Que homem bondoso, é um santo esse homem!

[Levanta satisfeito, cai abruptamente, morto.]