Te vi oito vezes hoje...
Uma vez em um ônibus que ia para o Rio de Janeiro, uma vez do outro lado da rua, duas no meio da multidão... Em uma das vezes você era uma mulher sentada de costas para o meu mundo. Em outra você caminhava com mais duas pessoas, gesticulava muito. Eu sorri.
Também vi o seu cabelo diversas vezes hoje: aquelas milhares de tocas para aqueles animaizinhos reclusos e ariscos que foram os seus pensamentos, todos escondidos de mim, com seus olhos brilhando na segurança de suas tocas.
Vi a cor da sua pele em relances de excitação e pavor... em braços que sentavam ao meu lado no transporte público, em mãos que acenavam para outras direções, em nucas mais costas que nunca.
Vi o seu jeito de andar para longe. Vi andares que fugiam como seus olhos, com o andar que eu conheço como seu, nesse aspecto, parecido com o meu.
Ou vi um riso seu? Dali! Não... dali! Um riso gostoso e engraçado. Fez-me ver meu riso algumas vezes hoje, depois não vi mais nada.
olhei tantas vezes com olhos de te ver que no final dessa noite só quero olhar para o chão, onde sei que não posso te encontrar. Já não há nenhuma ansiedade em mim.
É quando vem mais reprovável e violento o seu crime, de tomar de assalto os alteares da minha cabeça com suas armas de fogo, estuprar minhas solidões e especialidades, assassinar meus interesses, roubar meu tempo. Toma posse deste chão de fios de cabelo e me converte em mendigo no reino que ainda é meu.
E eu, meu próprio traidor, teu inimigo e protetor aqui dentro. Envenenoa sua comida e como-a antes que comece a salivar. Intercepto os tiros da minha própria mira...
É uma nebulosa e covarde e traiçoeira vontade de simplesmente ver rondar outra sombra que não a minha. É o mais simples e puro e desesperado medo de voltar a viver sozinho no meu peito.
E eu sei que se tivesse te visto hoje ao menos uma vez, não teria te reconhecido, nem teus cabelos, nem teu andar, nem a cor da tua pele, nem teu riso. Não saberia quem é você.
Somos irremediáveis desconhecidos.
Lembrodo teu gozo, dos teus quadris e pêlos, mas nãolembro de você.
Eu, injustamente, te inventei para ser a ponte entre minha imaginação e esse mundo de ervilhas, cenouras e batatas...
Mas isso não importa para irremediáveis desconhecidos.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
coisalgumadenadanão
E lá vai Deus.
Estamos sós.
Aqui, apenas sua casa abandonada.
Sempre a mesma luz azul e cinza. não há móveis além de uma cadeira no centro da velha casa.
Estou sentado nela desde que cheguei. Os olhos procuram entre os pontinhos de poeira, brilhando sob a luz fria que entra pela parte desmoronada do teto. Brilham fragmentos de teias de aranha abandonadas.
E a sala é tão ampla...
Corre um vento de saudade que entra com a luz fria.
Não há portas nem janelas.
Além de mim, da cadeira e da poeira, um chafariz.
Não dá mais o seu show, guarda apenas uma água suja e podre, parada desde a eternidade. Revestindo suas paredes de pedra trincada, uma trepadeira morta. Os galhos secos se emaranham em uma foto imutável.
Eu, sentado na cadeira, mãos nos joelhos, coluna ereta, ansioso. Procurando por algo perdido. Na esperança de algo que não vem.
Estamos sós.
Aqui, apenas sua casa abandonada.
Sempre a mesma luz azul e cinza. não há móveis além de uma cadeira no centro da velha casa.
Estou sentado nela desde que cheguei. Os olhos procuram entre os pontinhos de poeira, brilhando sob a luz fria que entra pela parte desmoronada do teto. Brilham fragmentos de teias de aranha abandonadas.
E a sala é tão ampla...
Corre um vento de saudade que entra com a luz fria.
Não há portas nem janelas.
Além de mim, da cadeira e da poeira, um chafariz.
Não dá mais o seu show, guarda apenas uma água suja e podre, parada desde a eternidade. Revestindo suas paredes de pedra trincada, uma trepadeira morta. Os galhos secos se emaranham em uma foto imutável.
Eu, sentado na cadeira, mãos nos joelhos, coluna ereta, ansioso. Procurando por algo perdido. Na esperança de algo que não vem.
coisalgumadenada
Abaixo a música um pouco para que ela não fale muito mais alto que meus pensamentos.
Meus pensamentos andam falando meio baixo. Qualquer coisa aqui dentro que antes gritava o cansaço finalmente cansou.
Não tem vontade de nada.
Não tem saudade de nada. Tudo que passou não é mais, é outro.
Apenas esse arrepio frio na pele, uma ardência que toma o rosto e chega aos olhos, carregando as nuvens sob as sobrancelhas.
Sem chuva.
Sem tempestade.
Apenas um sorriso nublado.
Todo amor encontra sua própria solidão.
Meu coração já se cansou de falsidade.
Faço minhas as suas palavras. São minhas essas notas. Um som tirado das cordas aqui do peito.
Tristeza que vem de onde. Vai para lugar nenhum. Fica aqui empoçada nas minhas ruas.
Olhei agora ao redor e nada se moveu.
...
Meus pensamentos andam falando meio baixo. Qualquer coisa aqui dentro que antes gritava o cansaço finalmente cansou.
Não tem vontade de nada.
Não tem saudade de nada. Tudo que passou não é mais, é outro.
Apenas esse arrepio frio na pele, uma ardência que toma o rosto e chega aos olhos, carregando as nuvens sob as sobrancelhas.
Sem chuva.
Sem tempestade.
Apenas um sorriso nublado.
Todo amor encontra sua própria solidão.
Meu coração já se cansou de falsidade.
Faço minhas as suas palavras. São minhas essas notas. Um som tirado das cordas aqui do peito.
Tristeza que vem de onde. Vai para lugar nenhum. Fica aqui empoçada nas minhas ruas.
Olhei agora ao redor e nada se moveu.
...
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Modelo Vivo
A pele amassada, suja, velha, puída,
Passada, lavada e novamente suja, encardida.
Pendurada, sêca.
Pele rasgada, furada. Traça.
Traça.
Traça, traça, traça.
Fedida e mofada.
Pele rôta de mofo.
Naftalina e baratas na pele.
Mendiga epiderme. Pedinte.
Pele morta.
Pelindigente.
Pele morta em cova comum.
Se em algum lugar um zíper...
Se em algum lugar uns botões...
velcro...
um laço frouxo para se desamarrar...
Na base das costas, subindo,
um caminho prateado e dentado.
Puxa com carinho o zíper, despindo.
Nas virilhas, botões.
Vermelhos, três de cada lado, com detalhes metálicos.
Desabotoa com carinho. Despeja os botões de suas casas e queima.
No peito e na testa, discreto, o velcro.
Uma grande tira de velcro de um mamilo a outro.
A segunda, de uma têmpora a outra.
Arranca agora com violência e susto.
Desprega as partes naquele som repentino e eu já recupero o fôlego.
Desafivela nos quadris e nos pulsos,
desata nas batatas e nas maçãs,
desamarra no pau,
desfaz algumas costuras e recorta algumas fibras.
Agora sim, nu.
Passada, lavada e novamente suja, encardida.
Pendurada, sêca.
Pele rasgada, furada. Traça.
Traça.
Traça, traça, traça.
Fedida e mofada.
Pele rôta de mofo.
Naftalina e baratas na pele.
Mendiga epiderme. Pedinte.
Pele morta.
Pelindigente.
Pele morta em cova comum.
Se em algum lugar um zíper...
Se em algum lugar uns botões...
velcro...
um laço frouxo para se desamarrar...
Na base das costas, subindo,
um caminho prateado e dentado.
Puxa com carinho o zíper, despindo.
Nas virilhas, botões.
Vermelhos, três de cada lado, com detalhes metálicos.
Desabotoa com carinho. Despeja os botões de suas casas e queima.
No peito e na testa, discreto, o velcro.
Uma grande tira de velcro de um mamilo a outro.
A segunda, de uma têmpora a outra.
Arranca agora com violência e susto.
Desprega as partes naquele som repentino e eu já recupero o fôlego.
Desafivela nos quadris e nos pulsos,
desata nas batatas e nas maçãs,
desamarra no pau,
desfaz algumas costuras e recorta algumas fibras.
Agora sim, nu.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Sumir
Ir para o Camboja
Cabelos brancos e compridos
Barba branca e comprida.
Ir para a Índia
A pele bronzeada
Dois ou três centímetros de levitação.
Ir para a Tailândia
Comer casulos de borboleta
Flores de Lótus onde caem as bitucas fumadas
Onde mora a vontade da mudança?
Como se foge do medo de permanecer?
Cabelos brancos e compridos
Barba branca e comprida.
Ir para a Índia
A pele bronzeada
Dois ou três centímetros de levitação.
Ir para a Tailândia
Comer casulos de borboleta
Flores de Lótus onde caem as bitucas fumadas
Onde mora a vontade da mudança?
Como se foge do medo de permanecer?
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Danou-se
Era a última folha do último galho da última árvore da última cidade do último país do último continente do último planeta da última galáxia do último grãozinho de arroz.
Ela balançava harmoniosamente, poeticamente, quase lentamente performática aos tranqüilos estímulos da brisa cuidadosa e carinhosa com a última folha do último grãozinho de arroz.
Um dia veio um vento brutal, desajeitado, lindo e sensual, feroz, quase carnal, enorme, se transformou em furacão e derrubou a folhinha no chão.
Acabou-se o Baião de dois.
Ela balançava harmoniosamente, poeticamente, quase lentamente performática aos tranqüilos estímulos da brisa cuidadosa e carinhosa com a última folha do último grãozinho de arroz.
Um dia veio um vento brutal, desajeitado, lindo e sensual, feroz, quase carnal, enorme, se transformou em furacão e derrubou a folhinha no chão.
Acabou-se o Baião de dois.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Meus olhos adolescentes
Que sono. Que sono... Que sono....
Que sono que me vem...
Eu te olhando em um momento e, no outro, os olhos se rebelam e vão se trancar atrás das pálpebras, batendo-as malcriadamente ao passarem!
Meus olhos adolescentes...
Arrombo as duas portas violentamente assim que me percebo adormecendo, meus olhos te olhando ainda, disfarçando.
Bate de novo o sono. Bate um sono... Bate um sono...
Um sono que me bate...
Vai de novo tudo rodando, tua imagem se dissolvendo, se misturando com meu piscar. Teu som também vai se diluindo, se transformando em meus pensamentos. Eu lutando para voltar a(o) te(u) olhar...
Meus pensamentos, mais concretos que nunca!
Meus pensamentos, mais claros que nunca!
Eu ainda sem saber que adormeci, de repente me sinto feliz e confortável, mergulho em um rio de pensamento e deixo a correnteza me carregar.
Olho os galhos das árvores passando acima... o barulho da água nos ouvidos... alguns peixes esbarrando nas costas abaixo... a brisa na ponta do nariz molhado...
Uma velha sentada vai tricotando com os fios de água do rio... Uma luva vai voando pelo céu até cair nas mãos de um namorado, nu, brilhando sob o sol... uma pedra vermelha passa rolando pela cachoeira... ele grita e dá um pulo, mata um albatroz para comer e beija a velha com sua língua roxa e comprida...
A correnteza vai me levando enquanto eu aprecio a paisagem.
Como é esquisito que um namorado tenha vestido apenas uma luva...! Muito estranho! Mas olha aquela árvore feita de agulhas!
...bonita...
Um jovem moreno e um velho sem olhos lambem meus dedos enquanto eu tento subir uma colina verdemente gramada. Eu enfio a mão em suas bocas e carrego-os como malas pesadas, o cheiro doce dos dois... que cansaço!
Aquele pier feito de madeira avança não sobre o lago Paranoá, sobre um abismo. Parece perfeito sentar lá e descansar...
Balanço as pernas no vazio, sentado sobre as tábuas do pier, olhando para baixo, escuro, acima, claro.
Vão as tábuas se desmanchando, o pier desabando, eu caindo... tentando alcançar os pedaços para fazer uma escada enquanto caio no escuro. Não dá! Não dá!!! Estão todas podres! Uma única martelada desfaz a madeira em pó! Não dá!
Eu caio com a cabeça sobre as coxas quentinhas, dentro de uma bermuda jeans esfiapada... Enquanto brinca com meus cabelos, choro e conto como não conseguia fazer uma escada - uma simples escada! - durante a queda... Minhas lágrimas molham tuas coxas e eu escorrego por elas.
Fico sufocado! Socorro! Eu, preso entre as pernas molhadas! Socorro! Abre as pernas! Socorro!
Tento sair e escorrego nas paredes feitas de pele molhada. Tento escalar, rasgando as carnes com as unhas, mas é tudo escorregadio de lágrima, suor e sangue! Faço um desenho para você e colo na parede, para quando você chegar!
Mergulho na água fria e penso se é um rio que vira uma vez...
Meus olhos adolescentes...
Lembro do teu rosto, teu sorriso incandescente falando... O que...? O teu sorriso falando o quê? De onde vem teu riso? Cadê você?
Você está rindo de mim. Mas por que será?
Que engraçado...
iuhaiuahaiuahaiuahiauhaiuahaiu
Sinto minha boca se alargando e devo estar sorrindo, mas eu estou sorrindo. Devo estar sorrindo. Eu estou sorrindo! Devo estar...
Arrombo as portas novamente, como que recuperando o fôlego depois de quase afogado!
Meus olhos perdidos como adultos, assistindo você rir de mim enquanto assiste eu despertar.
Devo estar dormindo.
Funcionou. O sono passou!
Que sono que me vem...
Eu te olhando em um momento e, no outro, os olhos se rebelam e vão se trancar atrás das pálpebras, batendo-as malcriadamente ao passarem!
Meus olhos adolescentes...
Arrombo as duas portas violentamente assim que me percebo adormecendo, meus olhos te olhando ainda, disfarçando.
Bate de novo o sono. Bate um sono... Bate um sono...
Um sono que me bate...
Vai de novo tudo rodando, tua imagem se dissolvendo, se misturando com meu piscar. Teu som também vai se diluindo, se transformando em meus pensamentos. Eu lutando para voltar a(o) te(u) olhar...
Meus pensamentos, mais concretos que nunca!
Meus pensamentos, mais claros que nunca!
Eu ainda sem saber que adormeci, de repente me sinto feliz e confortável, mergulho em um rio de pensamento e deixo a correnteza me carregar.
Olho os galhos das árvores passando acima... o barulho da água nos ouvidos... alguns peixes esbarrando nas costas abaixo... a brisa na ponta do nariz molhado...
Uma velha sentada vai tricotando com os fios de água do rio... Uma luva vai voando pelo céu até cair nas mãos de um namorado, nu, brilhando sob o sol... uma pedra vermelha passa rolando pela cachoeira... ele grita e dá um pulo, mata um albatroz para comer e beija a velha com sua língua roxa e comprida...
A correnteza vai me levando enquanto eu aprecio a paisagem.
Como é esquisito que um namorado tenha vestido apenas uma luva...! Muito estranho! Mas olha aquela árvore feita de agulhas!
...bonita...
Um jovem moreno e um velho sem olhos lambem meus dedos enquanto eu tento subir uma colina verdemente gramada. Eu enfio a mão em suas bocas e carrego-os como malas pesadas, o cheiro doce dos dois... que cansaço!
Aquele pier feito de madeira avança não sobre o lago Paranoá, sobre um abismo. Parece perfeito sentar lá e descansar...
Balanço as pernas no vazio, sentado sobre as tábuas do pier, olhando para baixo, escuro, acima, claro.
Vão as tábuas se desmanchando, o pier desabando, eu caindo... tentando alcançar os pedaços para fazer uma escada enquanto caio no escuro. Não dá! Não dá!!! Estão todas podres! Uma única martelada desfaz a madeira em pó! Não dá!
Eu caio com a cabeça sobre as coxas quentinhas, dentro de uma bermuda jeans esfiapada... Enquanto brinca com meus cabelos, choro e conto como não conseguia fazer uma escada - uma simples escada! - durante a queda... Minhas lágrimas molham tuas coxas e eu escorrego por elas.
Fico sufocado! Socorro! Eu, preso entre as pernas molhadas! Socorro! Abre as pernas! Socorro!
Tento sair e escorrego nas paredes feitas de pele molhada. Tento escalar, rasgando as carnes com as unhas, mas é tudo escorregadio de lágrima, suor e sangue! Faço um desenho para você e colo na parede, para quando você chegar!
Mergulho na água fria e penso se é um rio que vira uma vez...
Meus olhos adolescentes...
Lembro do teu rosto, teu sorriso incandescente falando... O que...? O teu sorriso falando o quê? De onde vem teu riso? Cadê você?
Você está rindo de mim. Mas por que será?
Que engraçado...
iuhaiuahaiuahaiuahiauhaiuahaiu
Sinto minha boca se alargando e devo estar sorrindo, mas eu estou sorrindo. Devo estar sorrindo. Eu estou sorrindo! Devo estar...
Arrombo as portas novamente, como que recuperando o fôlego depois de quase afogado!
Meus olhos perdidos como adultos, assistindo você rir de mim enquanto assiste eu despertar.
Devo estar dormindo.
Funcionou. O sono passou!
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