O maior produto comercializado hoje na Praça do Comércio é a paisagem, emoldurada pelos bytes de inumeráveis turistas que compram roupas na Rua Augusta, cerveja no Bairro Alto, pastéis de belém em Belém, castelos na Graça...
A Praça se abre como o céu, pontilhada de estrelas brilhando no esplendor de seus flashs, orbitando o sol de um cavaleiro bronzeado rodeado por elefantes petrificados. A Praça é um funil a convergir todas as águas de pessoas ao Tejo, ao Atlântico, escorrendo invisível por escadas que mergulham no mar, em direção ao absurdo destino submerso.
Às vezes imagino almas tristes a descerem aquelas escadas, molhando a barra de vestes esvoaçantes e luminosas. Almas chorosas atravessando as pessoas a escutarem a música moçambicana, atravessando a dançarina moçambicana, atravessando os alemães a tomarem sol, as crianças a brincarem com as ondas, atravessando os japoneses sempre tão felizes, atravessando-me. Um exército desapercebido a descer aquela escadaria e se misturar com a água.
O esforço de todo um oceano para subir cada degrau de novo e de novo. As pessoas rindo da incapacidade do mar, em sua fúria, de atingir o topo da escadaria. O eterno desce e sobe espumante e violento a não ultrapassar o décimo degrau.
E as pessoas a rirem-se do alto de seu décimo primeiro degrau, medrosos demais para imaginarem-se descendo os mesmos degraus até o fundo do mar.
Eu a escrever da segurança do meu décimo primeiro sobre um mapa que a falta de papel me fez escolher.
O que não me faltam são mapas. São mapas de Sintra, Lisboa, Portugal, linhas de metrô, comboio, de autocarros e elétricos... nenhum que me guie na direção do último degrau (ou primeiro). E eu me sentindo como as ondas, incansáveis em seu objetivo de escalar a imbatível escadaria, explodindo contra cada degrau em estilhaços brancos de água.
Um dia desses, dou a mão às ondas e ajudo o oceano inteiro a subir...
Um dia desses afoguei os pés no décimo degrau e o toque do mar foi doce e carinhoso, cheio de sentimento. Mesmo vindo implacável em espuma, velocidade e explosão afogou os pés e a barra da calça, mas fez navegar o coração, seguro pela âncora dos pés.
Se tiver de lembrar de algo, lembro destas escadas e destas ondas, da ameaça constante das águas ao décimo primeiro degrau, da corrida assustada de alguns turistas que não suportam a visão aterrorizante do mar empenhado em ultrapassar o décimo, das pessoas pegas de surpresa no oitavo ou no sétimo.
É a entrada da capital das navegações e quem não pode entrar é o mar, eternamente porteiro. Ele e as gaivotas, revezando-se em turnos de vigília sobre o portão lisboeta fincado no peito do mar, dois pilares brancos fora do alcance das mãos metamorfoseando-se em Canons, Nikons, Sonys, Sansungs...
Um dia desses, dou a mão às ondas e elas me puxam pro oceano, onde vale a pena naufragar, ser esquecido nas lágrimas esquecidas da história do mundo, fazer parte do exército a atravessar turistas.
segunda-feira, 26 de março de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
Diário de Lisboa . Música subterrânea
É superfície.
Caminho com som nos ouvidos, os sons portáteis, indiferente às vozes do mundo ao meu redor. É um momento de certa dor sorrateira e anônima...
Acontece que acordei, mas ainda me sinto dormindo e tudo soa como uma perturbação ao meu coração sonolento, sem vigor, sem pulsação. E o que tenho é fome, como se esperasse encontrar uma lanchonete que servisse qualquer intensidade e poesia em seu cardápio.
É superfície ainda.
Eu ainda indiferente, rumando pra beira do rio pensando nas minhas afinidades com o Superman e se o Clark Kent se sentiria assim eventualmente...
É superfície, eu desço na paragem, viro para o parque e escolho seu caminho mais escuro, entre os ciprestes, dobro à direita para passar pela fonte... superfície.
Para chegar ao rio, tem o inevitável subterrâneo, uma inevitável passagem.
Uma passagem subterrânea a apenas uma escadaria de distância da superfície.
Ainda com minha própria sonoplastia para a paisagem, vou descendo as escadas, com passos de quem espera se jogar no rio, com passos de quem não tem coragem, com passos de quem espera ser jogado no rio, com passos de quem sabe que Lisboa é segura demais pra isso.
Passos tristes a carregar um coração morno, um peito morto, uma vontade de ar, uma cabeça desencaixada, deslocada.
Estes passos a deixarem a superfície e descerem com a tensão de alpinistas cada degrau em direção ao subterrâneo.
Degrau a degrau mais próximo do subterrâneo.
Mas antes do fim, uma agulha a perfurar meus fones de ouvido, uma agulha que reconheci.
Em outra ocasião bem mais feliz, descendo as mesmas escadas entre o mundo subterrâneo e o da superfície, no mesmo degradê do desnível, uma música. O som de um violão solitário aumentando de volume na mesma proporção em que iam terminando os degraus, como se o corredor da passagem estivesse inundado e o descedor de escadas estivesse prestes a mergulhar e se molhar...
A passagem subterrânea.
Na quele corredor vazio àquela hora da noite, um homem sobre um banco, o rosto voltado ao violão, como se estivesse a tentar escutar o próprio peito, indiferente a mim e à moeda que depositei.
Sozinho na passagem subterrânea, indiferente aos passageiros como eu. E os ecos de seu violão nascendo e morrendo no intervalo entre as duas escadarias. Certidão de nascimento e óbito sem nunca alcançar a luz da lua na superfície.
E na passagem subterrânea...
E agora, esta mesma agulha a remendar esta memória, me lembrando da importância daquela travessia a esta hora da noite.
Instantaneamente retirei os fones de ouvido e abaixei o rosto como se reverenciasse um deus, para não encarar com indignidade aquele personagem, na glória de sua majestade e triste figura, sentado em seu trono, a dar vida a todo o seu reino do subsolo e ser soberano sobre seus súditos, as notinhas de mãos dadas a cantar a harmonia daquele reinado.
Sua música é simples, pequena. Agudos tão desesperados e graves tão conformados, uma emoção tão profunda dedilhada com tanta perícia, como se as cordas do violão fossem de veias e artérias da própria solidão. Que o homem canta toda noite sozinho, afogado nos ecos lindos de sua prece.
Ali, no subterrâneo...
E chegando ao meio da travessia: um terremoto. A passagem inteira a tremer, o meu limbo a desestabilizar-se, o subterrâneo a chacoalhar e vibrar. Os agudos e os graves a desaparecerem no som de um trovão, como se o mundo subterrâneo, de repente, fosse o próprio céu em tempestade.
É o trilho do trem que cruza a superfície logo acima.
É o trem que também me tempesteia por dentro e o mundo inteiro parece fadado ao fim naqueles trilhos. E o trem passou, e passou, e passou, e passou. E passou.
Passou e havia novamente só o violeiro e eu. E logo havia somente eu, deixando aquela música a cada degrau que subia para a superfície.
E logo havia apenas eu e o rio, e sua música também é linda.
E logo haverá novamente só eu e o violeiro na passagem subterrânea, percurso obrigatório d meu retorno. Mas a sua música não será mais a partitura da solidor, será a do Tejo nos meus olhos e no meu peito, que é só uma via pro mar.
A única diferença entre as músicas será eu, fazendo a sonoplastia da paisagem, mas sem os fones de ouvido.
Caminho com som nos ouvidos, os sons portáteis, indiferente às vozes do mundo ao meu redor. É um momento de certa dor sorrateira e anônima...
Acontece que acordei, mas ainda me sinto dormindo e tudo soa como uma perturbação ao meu coração sonolento, sem vigor, sem pulsação. E o que tenho é fome, como se esperasse encontrar uma lanchonete que servisse qualquer intensidade e poesia em seu cardápio.
É superfície ainda.
Eu ainda indiferente, rumando pra beira do rio pensando nas minhas afinidades com o Superman e se o Clark Kent se sentiria assim eventualmente...
É superfície, eu desço na paragem, viro para o parque e escolho seu caminho mais escuro, entre os ciprestes, dobro à direita para passar pela fonte... superfície.
Para chegar ao rio, tem o inevitável subterrâneo, uma inevitável passagem.
Uma passagem subterrânea a apenas uma escadaria de distância da superfície.
Ainda com minha própria sonoplastia para a paisagem, vou descendo as escadas, com passos de quem espera se jogar no rio, com passos de quem não tem coragem, com passos de quem espera ser jogado no rio, com passos de quem sabe que Lisboa é segura demais pra isso.
Passos tristes a carregar um coração morno, um peito morto, uma vontade de ar, uma cabeça desencaixada, deslocada.
Estes passos a deixarem a superfície e descerem com a tensão de alpinistas cada degrau em direção ao subterrâneo.
Degrau a degrau mais próximo do subterrâneo.
Mas antes do fim, uma agulha a perfurar meus fones de ouvido, uma agulha que reconheci.
Em outra ocasião bem mais feliz, descendo as mesmas escadas entre o mundo subterrâneo e o da superfície, no mesmo degradê do desnível, uma música. O som de um violão solitário aumentando de volume na mesma proporção em que iam terminando os degraus, como se o corredor da passagem estivesse inundado e o descedor de escadas estivesse prestes a mergulhar e se molhar...
A passagem subterrânea.
Na quele corredor vazio àquela hora da noite, um homem sobre um banco, o rosto voltado ao violão, como se estivesse a tentar escutar o próprio peito, indiferente a mim e à moeda que depositei.
Sozinho na passagem subterrânea, indiferente aos passageiros como eu. E os ecos de seu violão nascendo e morrendo no intervalo entre as duas escadarias. Certidão de nascimento e óbito sem nunca alcançar a luz da lua na superfície.
E na passagem subterrânea...
E agora, esta mesma agulha a remendar esta memória, me lembrando da importância daquela travessia a esta hora da noite.
Instantaneamente retirei os fones de ouvido e abaixei o rosto como se reverenciasse um deus, para não encarar com indignidade aquele personagem, na glória de sua majestade e triste figura, sentado em seu trono, a dar vida a todo o seu reino do subsolo e ser soberano sobre seus súditos, as notinhas de mãos dadas a cantar a harmonia daquele reinado.
Sua música é simples, pequena. Agudos tão desesperados e graves tão conformados, uma emoção tão profunda dedilhada com tanta perícia, como se as cordas do violão fossem de veias e artérias da própria solidão. Que o homem canta toda noite sozinho, afogado nos ecos lindos de sua prece.
Ali, no subterrâneo...
E chegando ao meio da travessia: um terremoto. A passagem inteira a tremer, o meu limbo a desestabilizar-se, o subterrâneo a chacoalhar e vibrar. Os agudos e os graves a desaparecerem no som de um trovão, como se o mundo subterrâneo, de repente, fosse o próprio céu em tempestade.
É o trilho do trem que cruza a superfície logo acima.
É o trem que também me tempesteia por dentro e o mundo inteiro parece fadado ao fim naqueles trilhos. E o trem passou, e passou, e passou, e passou. E passou.
Passou e havia novamente só o violeiro e eu. E logo havia somente eu, deixando aquela música a cada degrau que subia para a superfície.
E logo havia apenas eu e o rio, e sua música também é linda.
E logo haverá novamente só eu e o violeiro na passagem subterrânea, percurso obrigatório d meu retorno. Mas a sua música não será mais a partitura da solidor, será a do Tejo nos meus olhos e no meu peito, que é só uma via pro mar.
A única diferença entre as músicas será eu, fazendo a sonoplastia da paisagem, mas sem os fones de ouvido.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Diário de Lisboa . Drão

Dois dias encasulado na masmorra. Enclausurado no casulo.
Gastar o dinheiro de dois meses em duas semanas dá nisso! Muito bem gastos... com o que gosto, com quem gosto, com quando gosto.
Tendo como janela só a minha pequena, que dá para o número 26 lá na rua, número que ainda se justificará neste caminho à frente. Tendo como janela apenas a minha pequena, luminosa, que dá para o Brasil, para Brasília, para casa, às vezes para o mundo.
Pensando muito sobre o amor, sobre se é necessário pensar sobre o amor tão longe de casa, pensando se saudade é amor, se a saudade é caleidoscópica, ouvindo "Drão", impressionado com o último verso, reverberando para além do vídeo no Youtube, pensando se o meu amor tem lar em qualquer parte do mundo, se eu tenho coração em toda a parte do mundo.
É o que eu acho que acontece. Sem olhar as paisagens lá fora, olho pra paisagem aqui dentro. E está tudo turvo, sob neblina densa num dia de sol intenso... e o que se vê são praticamente apenas os raios do sol, com seu percurso encantador, mágico, etéreo desmascarado pela névoa. Algumas silhuetas que facilmente me distraem, divertem ou amedrontam ao redor... suas origens reais misteriosas, nada é claro.
Nessa paisagem, escuto umas vozes vindo não sei de onde, vozes do passado, de momentos do passado, de sentidos do passado, atravessando a bruma... Dizem coisas boas de ouvir no ouvido desse mesmo passado, estranhas ao ouvido que anda comigo agora, distraindo-o dos raios de sol. Tão longe de tudo que construí e mesmo assim algo que já quis muito construir me persegue agora com tijolos, cimento e pedreiro na mão. Mas não há mais lugar pro tamanho dos planos de ontem. Há lugar pra outros... Há apenas o lugar cigano e nômade da falta de planos.. drão... acho que também percebi que o verdadeiro amor é vão.
Faz menos sentido pensar no amor aqui, faz todo o sentido sentir amor aqui. É tudo lindo através do litros de água que me distanciam, é tudo lindo através da distorção, e talvez seja tudo mais verdadeiro através da distorção.
Antes mesmo de decolar, já embarcava na viagem de vinda pra descobrir que eu amo. E nunca me esqueço do "infinito mar", o infinito amar, nem do rio que corria para lá, do medo que eu tinha e dos pés que nunca haviam se molhado. Hoje ensopados, enlameados, atolados, machucados, afogados, mas no turbilhão da correnteza! E como é inacreditável o turbilhão da correnteza! E parece não fazer sentido se locomover se não for à nado, abandonando o barco e mergulhando na beira da praia, se afogando na areia.
"Morrer e nascer trigo. Viver e morrer pão"
A Lisboa de hoje acontece aqui dentro. As paisagens não são muito diferentes do que se via no Brasil, mas parecem abrigar uma foto panorâmica agora.
Hoje fiz uma caldo de marisco.
De saquinho, mas acrescentei tomate, alface, cenoura, repolho; temperei com orégano, alecrim, vinho branco, azeite... não obedeci o modo de preparo das instruções. Ficou maravilhoso.
Acho que a minha Lisboa, eu, estamos meio como esse caldo de marisco...
Tem algo na garganta que não quer sair.
Acho que é Caetano Veloso.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Diário de Lisboa . Apenas o fim do mundo
Foi apenas um copo de cerveja, uma Super Bock de 400 ml por 3,80 euros.
Foi apenas a dançarina de Cabo Verde chamada Camila dançando e vendendo os cd's da banda por 10 euros.
Foi apenas a música em frente à estátua de Fernando Pessoa.
Foi apenas o anoitecer. Foi apenas um ponto muito turístico demais.
Foi apenas The XX tocando dentro de mim ao ritmo de "chega de saudade, a realidade é que sem el...".
Foi apenas um encantamento com a menininha de casaco vermelho dançando antes de saber andar, lá, entre as pessoas indo e vindo na calçada.
Foi apenas saber que via a Camila dançando em pontos diferentes da cidade desde minha chegada.
Foi apenas o céu do tamanho da vida do universo lá em cima, suspenso, como um grão invisível. As Três Marias acompanhando minha viagem quando o que eu achava é que só voltaria a vê-las em seis meses. Vim acompanhado de amigos afinal.
Foi apenas a brasileira de sobrenome "Alegria" sentada no desnível da calçada vendendo desenhos antes de ser brasileira.
Foi apenas um par de olhos azuis que prometem e escondem muito.
Foi apenas o calor que fez hoje...
Foi apenas as pessoas. As pessoas. As pessoas.
Foi apenas... e foi pouco mesmo. Foi tudo pequeno como aquela partícula de poeira que a gente surpreende na luz do sol, ou como aquele pontinho semi-transparente que foge da pupila quando a gente tenta olhar diretamente pra ele.
Foi pequeno como os dias que achei natimortos, como os amores dolorosos e os inesperados - que são os mesmos -, como os dias ensolarados em que chove, como duas pessoas que duram pra sempre numa noite, pequeno como o encontro e o reencontro, foi pequeno como a perda...
Foi apenas isso e pequeno como a minha simples vontade de falar que o vulcão está em erupção. Que está a explodir num espetáculo lindo e terrível, que está a queimar tudo aqui dentro, destruir todos os calendários internos... Aqui dentro eu já enfrento o fim do mundo, e que todos podem se acalmar porque os maias fizeram aquele calendário pensando somente em mim, eu sou 2012 aqui dentro.
E é apenas o fim do mundo.
Hoje, eu espero que todos que eu amo queimem, tenham uma auto-estrada de altíssima velocidade cá dentro, tenham os olhos ardendo da mistura do riso com a lágrima, que sejam donos do mundo e deuses de outros só seus, que tenham o futuro do tamanho de dois segundos a cada dois segundos, que tenham o grave de suas músicas vibrando o peito.
Hoje, eu só desejo que todos que amo sejam muito felizes.
Eu desejo tão pouco neste momento.
É tanto desejar que querer pouco assim seja sempre?
Foi apenas a dançarina de Cabo Verde chamada Camila dançando e vendendo os cd's da banda por 10 euros.
Foi apenas a música em frente à estátua de Fernando Pessoa.
Foi apenas o anoitecer. Foi apenas um ponto muito turístico demais.
Foi apenas The XX tocando dentro de mim ao ritmo de "chega de saudade, a realidade é que sem el...".
Foi apenas um encantamento com a menininha de casaco vermelho dançando antes de saber andar, lá, entre as pessoas indo e vindo na calçada.
Foi apenas saber que via a Camila dançando em pontos diferentes da cidade desde minha chegada.
Foi apenas o céu do tamanho da vida do universo lá em cima, suspenso, como um grão invisível. As Três Marias acompanhando minha viagem quando o que eu achava é que só voltaria a vê-las em seis meses. Vim acompanhado de amigos afinal.
Foi apenas a brasileira de sobrenome "Alegria" sentada no desnível da calçada vendendo desenhos antes de ser brasileira.
Foi apenas um par de olhos azuis que prometem e escondem muito.
Foi apenas o calor que fez hoje...
Foi apenas as pessoas. As pessoas. As pessoas.
Foi apenas... e foi pouco mesmo. Foi tudo pequeno como aquela partícula de poeira que a gente surpreende na luz do sol, ou como aquele pontinho semi-transparente que foge da pupila quando a gente tenta olhar diretamente pra ele.
Foi pequeno como os dias que achei natimortos, como os amores dolorosos e os inesperados - que são os mesmos -, como os dias ensolarados em que chove, como duas pessoas que duram pra sempre numa noite, pequeno como o encontro e o reencontro, foi pequeno como a perda...
Foi apenas isso e pequeno como a minha simples vontade de falar que o vulcão está em erupção. Que está a explodir num espetáculo lindo e terrível, que está a queimar tudo aqui dentro, destruir todos os calendários internos... Aqui dentro eu já enfrento o fim do mundo, e que todos podem se acalmar porque os maias fizeram aquele calendário pensando somente em mim, eu sou 2012 aqui dentro.
E é apenas o fim do mundo.
Hoje, eu espero que todos que eu amo queimem, tenham uma auto-estrada de altíssima velocidade cá dentro, tenham os olhos ardendo da mistura do riso com a lágrima, que sejam donos do mundo e deuses de outros só seus, que tenham o futuro do tamanho de dois segundos a cada dois segundos, que tenham o grave de suas músicas vibrando o peito.
Hoje, eu só desejo que todos que amo sejam muito felizes.
Eu desejo tão pouco neste momento.
É tanto desejar que querer pouco assim seja sempre?
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Diário de Lisboa . Casa-quarto
Dia de faxina e arrumação.
Fiz uma limpeza naquilo que estava inaceitavelmente sujo, dobrei algumas roupas que estavam largadas no chão, organizei e classifiquei papéis em gavetas, armários e pastas, desempacotei pincéis, pastéis, lápis de cor, canetas e outros lápis, papéis em branco, separei as fotos que ornamentarão as paredes, aquele desenho na escada, coloquei o reloginho verde sobre a mesinha.
Agora o peito parece finalmente habitável, está mais confortável para o coração, mais acolhedor para o pulmão, mais espaçoso para as costelas. Estou a encher o peito de respiração neste momento, o ar estranhando a ausência - momentânea, eu sei - de bagunça e desorganização, deitado no chão do peito, olhando pela pequena janela da masmorrinha da garganta.
Aqui fora também aconteceu de forma parecida, na verdade, de forma exatamente igual: fiz uma limpeza naquilo que estava inaceitavelmente sujo, acalmei as saudades que estavam largadas pelo chão, organizei e classifiquei os planos e expectativas em gavetas, armários e pastas, desempacotei os desejos, as vontades, o vigor, as esperanças dos papéis em branco, separei os momentos e pessoas que ornamentarão as paredes, aquele sentimento, coloquei o reloginho verde sobre a mesinha.
E agora está tudo branco nas paredes brancas. Um quarto quase livre dos resquícios da viagem senão pelas malas atrás da porta, esperando por nova bagunça. Uma de resquícios da permanência, do lixo que surgir daqui, do que morrer da vida aqui, do que simplesmente nascer.
Ao chegar da rua, chegar em casa. Um martini à espera, uma portuguesa chamada Ana,um convite, um pouco de inglês com o alemão, tabaco na mortalha, música e Amanda.
Chegar em casa...
Chegar em casa até que se esteja em casa.
Ps.: e as horas da madrugada ainda me surpreendem.
Fiz uma limpeza naquilo que estava inaceitavelmente sujo, dobrei algumas roupas que estavam largadas no chão, organizei e classifiquei papéis em gavetas, armários e pastas, desempacotei pincéis, pastéis, lápis de cor, canetas e outros lápis, papéis em branco, separei as fotos que ornamentarão as paredes, aquele desenho na escada, coloquei o reloginho verde sobre a mesinha.
Agora o peito parece finalmente habitável, está mais confortável para o coração, mais acolhedor para o pulmão, mais espaçoso para as costelas. Estou a encher o peito de respiração neste momento, o ar estranhando a ausência - momentânea, eu sei - de bagunça e desorganização, deitado no chão do peito, olhando pela pequena janela da masmorrinha da garganta.
Aqui fora também aconteceu de forma parecida, na verdade, de forma exatamente igual: fiz uma limpeza naquilo que estava inaceitavelmente sujo, acalmei as saudades que estavam largadas pelo chão, organizei e classifiquei os planos e expectativas em gavetas, armários e pastas, desempacotei os desejos, as vontades, o vigor, as esperanças dos papéis em branco, separei os momentos e pessoas que ornamentarão as paredes, aquele sentimento, coloquei o reloginho verde sobre a mesinha.
E agora está tudo branco nas paredes brancas. Um quarto quase livre dos resquícios da viagem senão pelas malas atrás da porta, esperando por nova bagunça. Uma de resquícios da permanência, do lixo que surgir daqui, do que morrer da vida aqui, do que simplesmente nascer.
Ao chegar da rua, chegar em casa. Um martini à espera, uma portuguesa chamada Ana,um convite, um pouco de inglês com o alemão, tabaco na mortalha, música e Amanda.
Chegar em casa...
Chegar em casa até que se esteja em casa.
Ps.: e as horas da madrugada ainda me surpreendem.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Diário de Lisboa . Corpo lisboeta
Começo a constituir corpo lisboeta.
Hoje ganhei boca e pernas.
Boca a abrigar a cidade, a língua revolvendo a cidade dentro da boca, o estrogonofe na boca, a boca a comunicar outras bocas, bocalcântara no comboio, a boca a brincar com a língua, a língua na língua, o português... o português e o português. Boquiaberto, boquiabrindo-nos, desatando-nos.
Um trem na bocascais, o cais na bocascais, uma praia na bocascais, albatrozes e gaivotas na bocascais, um velho barco na bocascais, duas cervejas na bocascais. Cascais do sol tão longe da vista, caindo invisível e uma fome de por-do-sol na bocascais. Boca engolindo toda Cascais de uma vez.
Um barco desatracado na língua...
Irish Pub fixe. Hard Rock Cafe. Ouço malta de xungas e mitras. O fado na Rua da Saudade. Os azulejos na esquina deste momento.
Pernas por 26,90 euros, a andar por trilhos, rodas, estradas, cobrir toda Lisboa e só ela. Via Carris, por autocarros, comboios e elétricos. Dando passos maiores que as pernas por 4,10 euros, o preço do tropeço na fronteira do Navegante, desbravando o bravio do cais de Pirenópolis lusitano, nas cores, nas casas, no simples da luz do entardecer.
Nada de Pirenópolis na areia das pernas, felizes por existirem e, no fim, não pertencerem à Lisboa, mas a mim, batendo perna em Cascais, aberta ao Atlântico imenso.
Caminhando pelas costas atlânticas, ou seriam caras atlânticas? Os olhos ainda parecem olhar lá da costa do Farol de Santa Marta, onde fui feliz no mar um dia inteiro, com medo de tubarões e fascínio pelas ondas no golfinho.
Por 30 euros troco as pernas de fora-da-lei por duas de vale-transporte para Cascais e além, até que se apresente outra fronteira às pernas que são só minhas,as que fogem da lei e me levam de cúmplice e refém.
As pernas e boca voltam à Belém, ao restaurante de sempre, por 5 euros, mas não por 5 euros; apenas uma sopa hoje, por 90 centimos. Se recolhem na masmorrinha com Mariza e Amália Ribeiro, tentando somar ouvidos ao organismo do intercâmbio.
Hoje ganhei boca e pernas.
Boca a abrigar a cidade, a língua revolvendo a cidade dentro da boca, o estrogonofe na boca, a boca a comunicar outras bocas, bocalcântara no comboio, a boca a brincar com a língua, a língua na língua, o português... o português e o português. Boquiaberto, boquiabrindo-nos, desatando-nos.
Um trem na bocascais, o cais na bocascais, uma praia na bocascais, albatrozes e gaivotas na bocascais, um velho barco na bocascais, duas cervejas na bocascais. Cascais do sol tão longe da vista, caindo invisível e uma fome de por-do-sol na bocascais. Boca engolindo toda Cascais de uma vez.
Um barco desatracado na língua...
Irish Pub fixe. Hard Rock Cafe. Ouço malta de xungas e mitras. O fado na Rua da Saudade. Os azulejos na esquina deste momento.
Pernas por 26,90 euros, a andar por trilhos, rodas, estradas, cobrir toda Lisboa e só ela. Via Carris, por autocarros, comboios e elétricos. Dando passos maiores que as pernas por 4,10 euros, o preço do tropeço na fronteira do Navegante, desbravando o bravio do cais de Pirenópolis lusitano, nas cores, nas casas, no simples da luz do entardecer.
Nada de Pirenópolis na areia das pernas, felizes por existirem e, no fim, não pertencerem à Lisboa, mas a mim, batendo perna em Cascais, aberta ao Atlântico imenso.
Caminhando pelas costas atlânticas, ou seriam caras atlânticas? Os olhos ainda parecem olhar lá da costa do Farol de Santa Marta, onde fui feliz no mar um dia inteiro, com medo de tubarões e fascínio pelas ondas no golfinho.
Por 30 euros troco as pernas de fora-da-lei por duas de vale-transporte para Cascais e além, até que se apresente outra fronteira às pernas que são só minhas,as que fogem da lei e me levam de cúmplice e refém.
As pernas e boca voltam à Belém, ao restaurante de sempre, por 5 euros, mas não por 5 euros; apenas uma sopa hoje, por 90 centimos. Se recolhem na masmorrinha com Mariza e Amália Ribeiro, tentando somar ouvidos ao organismo do intercâmbio.
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