domingo, 2 de janeiro de 2011
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Sobre o que é novo
Ano novo chegando, alma nova envelhecendo, sonhos velhos morimbundando.
Ano velho morrendo e eu querendo costurar o cadáver no recém-nascido com a mesma linha que enforcou o morto.
Estou é querendo me enforcar nela também, gastar logo todas as 2010 vidas reservadas até 31 de dezembro. Então, abrir os olhos junto com o novo ano. Gêmeos, parto duplo, fórceps, cesária... normal nunca!
Eu quero um primeiro suspiro dos ventos dos primeiros tempos, quero de novo os meus primeiros tempos.
Alma nova envelhecida recém-nascida, sonhos velhos morimbundando vítimas do milagre da cura! Aleluia! Ansiedade pelas 2011 novas vidas a viver. Ansiedade pelas 2011 novas mortes a viver também.
Linha que nada! Eu quero é a agulha! Apenas a agulha... Que a velha agulha abra caminho às novas linhas, que existam sempre alfaiates aptos a refazer bainhas e que as calças acabem sempre pescando enquanto não for suficiente simplesmente estar nu.
Ano velho morrendo e eu querendo costurar o cadáver no recém-nascido com a mesma linha que enforcou o morto.
Estou é querendo me enforcar nela também, gastar logo todas as 2010 vidas reservadas até 31 de dezembro. Então, abrir os olhos junto com o novo ano. Gêmeos, parto duplo, fórceps, cesária... normal nunca!
Eu quero um primeiro suspiro dos ventos dos primeiros tempos, quero de novo os meus primeiros tempos.
Alma nova envelhecida recém-nascida, sonhos velhos morimbundando vítimas do milagre da cura! Aleluia! Ansiedade pelas 2011 novas vidas a viver. Ansiedade pelas 2011 novas mortes a viver também.
Linha que nada! Eu quero é a agulha! Apenas a agulha... Que a velha agulha abra caminho às novas linhas, que existam sempre alfaiates aptos a refazer bainhas e que as calças acabem sempre pescando enquanto não for suficiente simplesmente estar nu.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Vende-se
Aluga-se:
Imóvel de dois pavimentos em perfeitas condições! Construído em 30/01/1990, aproximadamente um punho fechado de área total. Ótima localização, avarandado e com amplas janelas, pintura nova e espaçoso, bom encanamento nas duas suítes, jardim e estacionamento, vista para todo o infinito privado, segurança 24h/dia............... (Alguns fantasmas).
Ando cansado de viver de aluguel.
Ando cansado de cobrar aluguel atrasado e de perdoar atrasos.
Ando me endividando pela fé no dia do pagamento do aluguel.
"Vende-se"
Pintei o fundo de preto, as letras de vermelho, o hífen de branco.
Ficou bonita: os cantos bem lixados, a caligrafia bem ajustada, a frase bem centralizada.
Há duas semanas, sem aviso ao inquilino, finquei a estaca da placa no chão, em frente ao portão. Perfurei qualquer encanamento e o solo transbordou, enxarcando toda a entrada. Em menos de três dias, o inquilino havia pago todos os aluguéis atrasados, falou em renovar contrato e até adiantar alguns meses.
No mês seguinte, me atendeu sem o dinheiro em mãos.
No seguinte, me atendeu sem dinheiro em lugar algum.
No seguinte,não me atendeu.
No mês seguinte, soltou os cachorros.
No seguinte, matou meus cachorros.
A pintura nova das janelas está descascando, a das paredes está cheia de umidade. Os vitrais coloridos do segundo andar estão despedaçados. O jardim foi tomado pelo lixo e pelo mato. Parte do telhado desmoronou e há cheiro de fumaça e pó. Tudo range e estala e trinca.
Minhas mãos colaram às barras de prata do portão trancado de minha própria propriedade.
Em alguns dias chove; em outros, não percebo que chove.
Quando vejo um vulto nas janelas, o céu se abre lá no alto e faz aparecer o sol, que brilha e faz tudo lampejar. Por dois segundos tudo é constituído de felicidade até que o sol vai despencando lá de cima, caindo e caindo, despencando em minha direção, caindo sobre mim, explodindo na minha cabeça e transformando em cinzas minha vontade.
Ando querendo despejar o atual inquilino.
Ando querendo parar com os investimentos em imóveis.
Ando desejando um terreno baldio no peito.
Imóvel de dois pavimentos em perfeitas condições! Construído em 30/01/1990, aproximadamente um punho fechado de área total. Ótima localização, avarandado e com amplas janelas, pintura nova e espaçoso, bom encanamento nas duas suítes, jardim e estacionamento, vista para todo o infinito privado, segurança 24h/dia............... (Alguns fantasmas).
Ando cansado de viver de aluguel.
Ando cansado de cobrar aluguel atrasado e de perdoar atrasos.
Ando me endividando pela fé no dia do pagamento do aluguel.
"Vende-se"
Pintei o fundo de preto, as letras de vermelho, o hífen de branco.
Ficou bonita: os cantos bem lixados, a caligrafia bem ajustada, a frase bem centralizada.
Há duas semanas, sem aviso ao inquilino, finquei a estaca da placa no chão, em frente ao portão. Perfurei qualquer encanamento e o solo transbordou, enxarcando toda a entrada. Em menos de três dias, o inquilino havia pago todos os aluguéis atrasados, falou em renovar contrato e até adiantar alguns meses.
No mês seguinte, me atendeu sem o dinheiro em mãos.
No seguinte, me atendeu sem dinheiro em lugar algum.
No seguinte,não me atendeu.
No mês seguinte, soltou os cachorros.
No seguinte, matou meus cachorros.
A pintura nova das janelas está descascando, a das paredes está cheia de umidade. Os vitrais coloridos do segundo andar estão despedaçados. O jardim foi tomado pelo lixo e pelo mato. Parte do telhado desmoronou e há cheiro de fumaça e pó. Tudo range e estala e trinca.
Minhas mãos colaram às barras de prata do portão trancado de minha própria propriedade.
Em alguns dias chove; em outros, não percebo que chove.
Quando vejo um vulto nas janelas, o céu se abre lá no alto e faz aparecer o sol, que brilha e faz tudo lampejar. Por dois segundos tudo é constituído de felicidade até que o sol vai despencando lá de cima, caindo e caindo, despencando em minha direção, caindo sobre mim, explodindo na minha cabeça e transformando em cinzas minha vontade.
Ando querendo despejar o atual inquilino.
Ando querendo parar com os investimentos em imóveis.
Ando desejando um terreno baldio no peito.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Na Fogueira
E eu vou fingir que a luz da lua na pele enfeia, que a luz do fogo na pele é gelo. Que os peitos direitos me olhando assim são o estrabismo de uma alma a usar o corpo como óculos. Vou fingir que as divinas fronteiras em que o corpo faz divisa com todo o resto do mundo são terremotos aposentados, que meu tremor é frio, que meu tremor é doença. Meu tremor é terminal e fatal. E eu vou fingir que os movimentos de mãos assim são alívio das moscas. Só. Alívio das moscas... só... Os movimentos das mãos... alívio das moscas... Que a fantasia de sonho é boba, como a bochecha, como os fios de cabelo, como a bunda, como os mamilos, como as costas, como o pescoço e a orelha, como os lábios e a língua. Que é bobo se fantasiar assim! Eu não suporto! Os olhos direitos choram por gostar demais, os esquerdos, por não suportar mais! E, no entanto, todos eles choram.
Os dentes choram ao fingir. A voz queimando o ar, envenenando os ouvidos com a tranquilidade da indiferença, me alcoolizando, meus olhos vomitando.
O seu doce pássaro pousando em todos os ombros e cantando músicas aos ouvidos mais nojentos. Todos fingindo.
Eu vou fugir.
Me refugiar nas proximidades dos domínios do seu fingimento.
Os dentes choram ao fingir. A voz queimando o ar, envenenando os ouvidos com a tranquilidade da indiferença, me alcoolizando, meus olhos vomitando.
O seu doce pássaro pousando em todos os ombros e cantando músicas aos ouvidos mais nojentos. Todos fingindo.
Eu vou fugir.
Me refugiar nas proximidades dos domínios do seu fingimento.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Olhos viciados
Te vi oito vezes hoje...
Uma vez em um ônibus que ia para o Rio de Janeiro, uma vez do outro lado da rua, duas no meio da multidão... Em uma das vezes você era uma mulher sentada de costas para o meu mundo. Em outra você caminhava com mais duas pessoas, gesticulava muito. Eu sorri.
Também vi o seu cabelo diversas vezes hoje: aquelas milhares de tocas para aqueles animaizinhos reclusos e ariscos que foram os seus pensamentos, todos escondidos de mim, com seus olhos brilhando na segurança de suas tocas.
Vi a cor da sua pele em relances de excitação e pavor... em braços que sentavam ao meu lado no transporte público, em mãos que acenavam para outras direções, em nucas mais costas que nunca.
Vi o seu jeito de andar para longe. Vi andares que fugiam como seus olhos, com o andar que eu conheço como seu, nesse aspecto, parecido com o meu.
Ou vi um riso seu? Dali! Não... dali! Um riso gostoso e engraçado. Fez-me ver meu riso algumas vezes hoje, depois não vi mais nada.
olhei tantas vezes com olhos de te ver que no final dessa noite só quero olhar para o chão, onde sei que não posso te encontrar. Já não há nenhuma ansiedade em mim.
É quando vem mais reprovável e violento o seu crime, de tomar de assalto os alteares da minha cabeça com suas armas de fogo, estuprar minhas solidões e especialidades, assassinar meus interesses, roubar meu tempo. Toma posse deste chão de fios de cabelo e me converte em mendigo no reino que ainda é meu.
E eu, meu próprio traidor, teu inimigo e protetor aqui dentro. Envenenoa sua comida e como-a antes que comece a salivar. Intercepto os tiros da minha própria mira...
É uma nebulosa e covarde e traiçoeira vontade de simplesmente ver rondar outra sombra que não a minha. É o mais simples e puro e desesperado medo de voltar a viver sozinho no meu peito.
E eu sei que se tivesse te visto hoje ao menos uma vez, não teria te reconhecido, nem teus cabelos, nem teu andar, nem a cor da tua pele, nem teu riso. Não saberia quem é você.
Somos irremediáveis desconhecidos.
Lembrodo teu gozo, dos teus quadris e pêlos, mas nãolembro de você.
Eu, injustamente, te inventei para ser a ponte entre minha imaginação e esse mundo de ervilhas, cenouras e batatas...
Mas isso não importa para irremediáveis desconhecidos.
Uma vez em um ônibus que ia para o Rio de Janeiro, uma vez do outro lado da rua, duas no meio da multidão... Em uma das vezes você era uma mulher sentada de costas para o meu mundo. Em outra você caminhava com mais duas pessoas, gesticulava muito. Eu sorri.
Também vi o seu cabelo diversas vezes hoje: aquelas milhares de tocas para aqueles animaizinhos reclusos e ariscos que foram os seus pensamentos, todos escondidos de mim, com seus olhos brilhando na segurança de suas tocas.
Vi a cor da sua pele em relances de excitação e pavor... em braços que sentavam ao meu lado no transporte público, em mãos que acenavam para outras direções, em nucas mais costas que nunca.
Vi o seu jeito de andar para longe. Vi andares que fugiam como seus olhos, com o andar que eu conheço como seu, nesse aspecto, parecido com o meu.
Ou vi um riso seu? Dali! Não... dali! Um riso gostoso e engraçado. Fez-me ver meu riso algumas vezes hoje, depois não vi mais nada.
olhei tantas vezes com olhos de te ver que no final dessa noite só quero olhar para o chão, onde sei que não posso te encontrar. Já não há nenhuma ansiedade em mim.
É quando vem mais reprovável e violento o seu crime, de tomar de assalto os alteares da minha cabeça com suas armas de fogo, estuprar minhas solidões e especialidades, assassinar meus interesses, roubar meu tempo. Toma posse deste chão de fios de cabelo e me converte em mendigo no reino que ainda é meu.
E eu, meu próprio traidor, teu inimigo e protetor aqui dentro. Envenenoa sua comida e como-a antes que comece a salivar. Intercepto os tiros da minha própria mira...
É uma nebulosa e covarde e traiçoeira vontade de simplesmente ver rondar outra sombra que não a minha. É o mais simples e puro e desesperado medo de voltar a viver sozinho no meu peito.
E eu sei que se tivesse te visto hoje ao menos uma vez, não teria te reconhecido, nem teus cabelos, nem teu andar, nem a cor da tua pele, nem teu riso. Não saberia quem é você.
Somos irremediáveis desconhecidos.
Lembrodo teu gozo, dos teus quadris e pêlos, mas nãolembro de você.
Eu, injustamente, te inventei para ser a ponte entre minha imaginação e esse mundo de ervilhas, cenouras e batatas...
Mas isso não importa para irremediáveis desconhecidos.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
coisalgumadenadanão
E lá vai Deus.
Estamos sós.
Aqui, apenas sua casa abandonada.
Sempre a mesma luz azul e cinza. não há móveis além de uma cadeira no centro da velha casa.
Estou sentado nela desde que cheguei. Os olhos procuram entre os pontinhos de poeira, brilhando sob a luz fria que entra pela parte desmoronada do teto. Brilham fragmentos de teias de aranha abandonadas.
E a sala é tão ampla...
Corre um vento de saudade que entra com a luz fria.
Não há portas nem janelas.
Além de mim, da cadeira e da poeira, um chafariz.
Não dá mais o seu show, guarda apenas uma água suja e podre, parada desde a eternidade. Revestindo suas paredes de pedra trincada, uma trepadeira morta. Os galhos secos se emaranham em uma foto imutável.
Eu, sentado na cadeira, mãos nos joelhos, coluna ereta, ansioso. Procurando por algo perdido. Na esperança de algo que não vem.
Estamos sós.
Aqui, apenas sua casa abandonada.
Sempre a mesma luz azul e cinza. não há móveis além de uma cadeira no centro da velha casa.
Estou sentado nela desde que cheguei. Os olhos procuram entre os pontinhos de poeira, brilhando sob a luz fria que entra pela parte desmoronada do teto. Brilham fragmentos de teias de aranha abandonadas.
E a sala é tão ampla...
Corre um vento de saudade que entra com a luz fria.
Não há portas nem janelas.
Além de mim, da cadeira e da poeira, um chafariz.
Não dá mais o seu show, guarda apenas uma água suja e podre, parada desde a eternidade. Revestindo suas paredes de pedra trincada, uma trepadeira morta. Os galhos secos se emaranham em uma foto imutável.
Eu, sentado na cadeira, mãos nos joelhos, coluna ereta, ansioso. Procurando por algo perdido. Na esperança de algo que não vem.
coisalgumadenada
Abaixo a música um pouco para que ela não fale muito mais alto que meus pensamentos.
Meus pensamentos andam falando meio baixo. Qualquer coisa aqui dentro que antes gritava o cansaço finalmente cansou.
Não tem vontade de nada.
Não tem saudade de nada. Tudo que passou não é mais, é outro.
Apenas esse arrepio frio na pele, uma ardência que toma o rosto e chega aos olhos, carregando as nuvens sob as sobrancelhas.
Sem chuva.
Sem tempestade.
Apenas um sorriso nublado.
Todo amor encontra sua própria solidão.
Meu coração já se cansou de falsidade.
Faço minhas as suas palavras. São minhas essas notas. Um som tirado das cordas aqui do peito.
Tristeza que vem de onde. Vai para lugar nenhum. Fica aqui empoçada nas minhas ruas.
Olhei agora ao redor e nada se moveu.
...
Meus pensamentos andam falando meio baixo. Qualquer coisa aqui dentro que antes gritava o cansaço finalmente cansou.
Não tem vontade de nada.
Não tem saudade de nada. Tudo que passou não é mais, é outro.
Apenas esse arrepio frio na pele, uma ardência que toma o rosto e chega aos olhos, carregando as nuvens sob as sobrancelhas.
Sem chuva.
Sem tempestade.
Apenas um sorriso nublado.
Todo amor encontra sua própria solidão.
Meu coração já se cansou de falsidade.
Faço minhas as suas palavras. São minhas essas notas. Um som tirado das cordas aqui do peito.
Tristeza que vem de onde. Vai para lugar nenhum. Fica aqui empoçada nas minhas ruas.
Olhei agora ao redor e nada se moveu.
...
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